terça-feira, 18 de agosto de 2020

Golpe militar a 28 de Maio

O almoço deste dia 30 de Maio, estava pesado, não porque o bacalhau à Gomes de Sá, que eu mandara a cozinheira Efigénia, prepara para esse dia ao almoço, fosse de condimentação pesada, mas porque o semblante da Severa Mourisca não agurava nada de bom, atendendo às notícias que eu acabara de lhe ler no O Século de hoje.

Estava excelente o bacalhau, que esse cozinheiro do Restaurante Lisbonense (na foto), havia criado e que segundo sabia se encontrava, bastante doente. A velha Efigénia se bem que minhota, há anos que viera para Lisboa e tinha servido nas melhores casa, pelo que não tinha dificuldade em confeccionar os pratos que eu lhe encomendava.

Não fora o caso deste bacalhau, já que a confecção é simples pois a sua receita tradicional propõe que o bacalhau seja cortado em pequenas lascas marinadas no leite por mais de uma hora. Assado no forno, com azeite, alho, cebola, acompanhando azeitonas pretas, salsa e ovos cozidos.

As consequências do golpe militar que sob a chefia de Gomes da Costa, se tinha iniciado em Braga no dia 28, tinham precipitado acontecimentos vários, desde a demissão do governo de Antonio Maria da Silva  ao mesmo tempo que a guarnição militar de Lisboa, sob o comando de Mendes Cabeçadas, adere ao movimento de Gomes da Costa, com o apoio da polícia de Ferreira do Amaral.

Que não houvesse preocupação dizia eu à minha amiga Severa, era um movimento militar que tinha por objectivo restaurar a ordem pública e não tardaria a que o Bernardino Machado, nomeasse outros governo da confiança dos militares e tudo continuaria como dantes, ela que bem sabia que de Gomes da Costa se dizia que tinha cabeça de galinha e era sempre da opinião da última pessoa com quem falava.

Ela abanava a cabeça taciturna, dizia-me que desta vez SABIA, TINHA A CERTEZA, que esta revolta tinha chegado para ficar e que iria durar décadas, que passaríamos tempos de ditadura e os ideais republicanos e democráticos, postos em causa.

Não deixou de me perguntar sibilinamente se a escolha do almoço não fora uma subtil homenagem minha á revolta do outro Gomes. Descansei-a quanto ás minhas intenções políticas, já que das suas, fiquei sem dúvidas.

Dizia-me ela que não duvidasse das suas capacidades divinatórias e que me lembrasse futuramente que não foi por acaso, que a revolta de Gomes da Costa, havia começado em Braga, já que nessa altura também ali decorria o Congresso Mariano, e essa dupla entre a força e a Virgem Maria, chegara para durar.

Lembrei-me que há pouco tempo, havia elogiado a capacidade cívica organizativa dos portugueses, onde as pessoas participavam activamente , embora também se notassem alguns sinais de cansaço, pelas dificuldades mas sobretudo pela incapacidade política de encontrarem ponto de concórdia mínimos que pudessem suprir as dificuldades que o País atravessa.

Constava-se que Bernardino Machado se havia demitido e entregue o poder nas mãos de Mendes Cabeçadas novo chefe do executivo, que ele próprio havia empossado.

Para desanuviar o ambiente no fim do almoço, propus-lhe que passássemos à biblioteca, para ouvir um pouco da Turandot que estreara no Scala em Abril passado

Casa Comum, 31 de Maio de 1926



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