domingo, 16 de agosto de 2020

Agitação nas ruas e demasiada calma cá em casa

Casa Comum, 7 de Março de 1926


Gostei de ler o livro de poesia desse jovem vila-condense recém formado em Filologia Românica, chamado Poemas de Deus e do Diabo, que dá pelo nome de José Régio.



Interessante para livro de estreia que reflecte a ansiedade dos tempos que se vivem as dificuldades económicas mas sobretudo a insegurança política.

Gente do bairro da Mouraria informou-me que no dia 6 de Fevereiro nasceu ali a que virá a ser a grande fadista Argentina Santos- Alguns anos estará sem cantar porque 2 dos seus maridos impediram-na de o fazer . Vale pouco como se sabe, a vontade da mulheres 


Os atentados bombistas sucedem-se, com ataques que por vezes são semanais

É a cultura que adocica a alma e torna os momentos de insegurança mais suaves, mas o povo esse não tem alternativas sofre insegurança e tiroteio pelas ruas.

Pus a tocar na grafonola, este magnífico trecho do jovem compositor Villa Lobos, saído no ano passado que dá pelo nome de Choros nº5-Alma Brasileira, de que tenho gostado imenso desde que os começou a publicar em 1920 essa colectânea instrumental chamada Choros.

É assim que me consigo abstrair de toda a agitação política, ainda marcada pelos dois facto mais relevantes as sequelas do caso Alves dos Reis e o fim do monopólio dos tabacos.

No Parlamento ainda em Janeiro, Amâncio de Alpoim, criticou severamente a administração do Banco de Portugal de ser uma caverna de falsificadores e ladrões, mas as opiniões dividem-se aventando as hipóteses possíveis com grande veemência, para uns o caso Alves dos Reis está relacionado com um vasto plano soviético, ou para outros um ferrete de estrangeiros.

A Revolta de Almada, em Fevereiro passado, reflecte a confusão política. A revolta chefiada pelo construtor civil José Martins Júnior, reunindo outubristas, sidonistas, ex-democráticos, formigas pretas e radicais, tentou tomar de assalto o Quartel da Escola Prática de Artilharia em Vendas Novas.

Nada que se pareça contudo, com a revolta militar de 18 de Abril do ano passado, mas parece-me que no meio militar existe uma simpatia crescente por soluções ditatoriais, tipo Primo de Rivera em Espanha ou o exemplo fascista italiano .

O cansaço de sofrer também "empurra" o povo para o apoio a soluções desse tipo, a meu ver contra-natura.

Ouvi dizer que amanhã Afonso Costa, vai presidir à Assembleia Geral da Sociedade das Nações, o que é sempre uma honra para o País, mas o Afonso Costa desde que se exilou em 1918, só ocupa lugares na cena internacional, nunca mais quis ocupar cargo na política nacional, embora muitas vezes tenha sido convidado.

Há políticos assim, muito portuguesismo mas quando chega a hora do prestígio pessoal e do dinheirinho ganho lá por fora não querem outra coisa

Estou ainda a aguardar a chegada da nova governanta beirã, que se chama Maria de Jesus de quem espero, saiba administrar este casarão que embora actualmente sem hóspedes, espero venha a ter em breve alguns inquilinos.

Já pus anúncio no O Século e no Diário de Notícias, com o seguinte teor

Aluga-se Quarto, na Casa Comum, a pessoa interessada, em compartilhar este espaço e com disponibilidade para os serões à conversa, sobre qualquer assunto interessante do nosso tempo,
Esmerado tratamento de roupas, e sistema de refeições caseiras a combinar.


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