Que estranho ter acordado neste 1 de Janeiro de 1926 e ter o casarão vazio. Habituei-me ao bulício desta casa e agora custa-me percorre-la vazia. Não sinto o cheiro do arroz de pato, que uma simpática senhora de Alcobaça, que por aqui passava, por ser amiga da D.Hilda, uma governanta que aqui existiu em tempos e que por amizade insistia em cozinha-lo por o saber, tão do gosto da nossa velha Hilda, filha de família outrora abastada.
Vou colar nos vidros das janelas, o triângulo indicativo, de que se trata de quarto para alugar. Hoje, que decidi manter a casa aberta, por mais algum tempo. Não vou conseguir mais do que 2 mil réis pelo aluguer, a vida está difícil, com grandes dificuldades económicas porque os preços dos bens alimentares não param de subir e os salários estão cada vez mais baixos. Desde o fim da Guerra Mundial tem sido sempre assim.
Alves dos Reis foi preso no fim do ano passado, por causa daquela trapalhada, das notas falsas e da confusão que se gerou no Banco de Portugal, com toda a gente a crer trocar as notas falsas.
Como eu percebo afinal o presidente Teixeira Gomes que ao partir para o exílio, desabafou , que se libertou da gaiola dourada de Belém e que os políticos eram intoleráveis. Achei interessante esta analogia com a liberdade dos passarinhos, que nenhum político até hoje se lembrara de estabelecer, se calhar uma dia virá que algum se lembrará de o citar.
Claro que ao novo presidente Bernardino Machado seguiu-se um novo governo com o António Maria da Silva a presidir, vamos lá a ver o que é que isto vai dar, mas o povo já não acredita em nenhum, sobretudo nos que já entram derrotados.
De lá de fora ouvem-se notícias bem mais animadoras. Li no jornal O Século, que na Inglaterra surgiram, leis de subsídio de viuvez, orfandade e velhice e leis sobre habitação social e subsídio de desemprego.Não me parece que cheguem cá tão depressa.
Por cá tomara termos emprego e mantê-lo, para poder mitigar a fome e comprar uma alpercatas e umas gangas que a mais o povo não aspira.
Não, mais do que vinte e cinco tostões vou pedir pelo quarto, só queria é que aparecesse alguém com emprego estável, no Estado, na Banco ou empregado do Grandella porque são lugares com futuro, para que se não ande sempre a mudar.
Além disso gostaria que aparecesse alguém com gosto pela poesia o pela ópera, para que se pudessem fazer aqui uns serões agradáveis com um pouco de cultura.
Se houver interesse, talvez aceite mandar vir uma criada de servir, já que me falaram duma pequena ali da zona saloia da Malveira, que se ajeita na cozinha e com quartos todos alugados, me meteria em aprontar serviços de governanta, cargo para o qual também já me falaram duma tal Maria, uma beirã que dizem muito alinhada e asseada, vamos ver.
Se o meu aparelho de rádio, não estiver dessincronizado e não tiver ar na canalização, vou ouvir o CT1 AA, que começou a trabalhar com muito êxito do ano passado, graças aos esforços do sr. Abílio Nunes dos Santos
Casa Comum, 1 de Janeiro de 1926
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