Notas do meu diário
Casa Comum, 30 e Abril e 1954
26 de Janeiro, Encerrada a Colónia Penal do Tarrafal. O último preso que ainda estava detido, era o comunista Francisco Miguel O Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, foi criado em 1936, pelo Estado Novo de Salazar, para encarcerar opositores políticos: comunistas, sindicalistas, anarquistas, republicanos, militares dissidentes. Era oficialmente chamado de Colónia Penal do Tarrafal, mas ficou conhecido como “Campo da Morte Lenta O encerramento não foi um ato de humanidade súbita. Foi o resultado de vários fatores combinados: Pressão internacional crescente
Mudança de contexto político Mortalidade e escândalo
Essas mortes já não conseguiam ser totalmente ocultadas |
· Fevereiro - Até ao mês de Março tiveram lugar, várias greves de operários têxteis no norte, nomeadamente em Riba d’Ave e Vila do Conde. Insere-se na luta desencadeada pelo PCP contra a chamada campanha da produtividade. |
02 de Abril Arantes de Oliveira, novo ministro das obras públicas. Durante o salazarismo assume-se como o ministro das inaugurações, tendo uma grande visibilidade pública, face ao aparecimento da televisão. Está, sobretudo, ligado ao processo de electrificação do país através da construção das barragens hidroeléctricas, mas também é o grande projectista da Ponte Sobre o Tejo de Lisboa. 20 de Abril Aprovado o Estatuto dos Indígenas Portugueses das Províncias da Guiné, Angola e Moçambique. A população é dividida em três grupos: os brancos, os assimilados e os indígenas O Estatuto dos Indígenas Portugueses (formalmente, Estatuto dos Indígenas das Províncias da Guiné, Angola e Moçambique) era o pilar jurídico da discriminação colonial portuguesa. Em 1954, ele continua plenamente em vigor e ajuda a entender por que o encerramento do Tarrafal nesse mesmo ano foi, no fundo, cosmético. |
O Estatuto estabelecia uma divisão legal entre:
A maioria esmagadora da população africana era classificada como indígena, o que significava: 🔹 ausência de cidadania plena O “indígena” não era visto como sujeito de direitos, mas como objeto de tutela do Estado colonial. |
O Estatuto previa a figura do “assimilado”, mas isso era uma exceção quase inatingível. Para deixar de ser “indígena”, exigia-se:
Mesmo assim, a concessão era reversível. A igualdade nunca era garantida. Em 1954, portanto, Portugal continuava oficialmente a afirmar que milhões de pessoas não estavam “preparadas” para ser cidadãs. |
A contradição de 1954
Aqui está o ponto crucial:
Ou seja, o regime tentava dizer ao mundo:
Mas continuava a dizer às colónias:
O encerramento do Tarrafal em 1954 não significou um recuo do colonialismo — apenas uma reorganização da violência, agora sustentada sobretudo pelo direito colonial. |
Significado histórico
O Estatuto dos Indígenas mostra que:
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