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domingo, 23 de agosto de 2020

Maria de Jesus preferiu um tal Salazar

Casa Comum, 01 de Dezembro de 1926

Hoje fomos informados pela nossa vizinha que a conterânea dela lá de Penela  a Maria de Jesus , prometida para serviçal cá da casa, afinal já não vinha, tinha preferido acompanhar um tal Oliveira Salazar ,que tinha vindo para Lisboa a  Ministro da Fazenda.

Com a sucessão de governos a caírem, se calhar será  sol de pouca dura, mas penso que ela já o conhecia mais ao padre Cerejeira desde Coimbra

A  má notícia é que desde Junho que é obrigatório os jornais aparecerem com o carimbo de "Este número foi visado pela Comissão de Censura". fagulhas incendiárias duma ditadura em ebulição

Alguns amigos já me vieram falar daquilo que chamam de Reviralho, uma tentativa de repor  a ordem republicana ameaçada pelas tendências ditatoriais que se esboçam. Alfredo Chaves e João de Almeida eram o exemplos que me davam dessa rebelia 

A tradição bem portuguesa de premiar quem esfaqueia amigos  pelas costas , relembrando-me a Severa Mourisca que ao contrário do princípio romana , em Portugal paga-se a traidores. 

Aí eatá a promoção do ministro dos Negócio estrangeiros Oscar Carmona a  presidente da República interino  aconteceu a 29 de Novembro

Tenho esperança que um dia as caisas se alterem e que possamos receber notícias com maior celeridade, que se acabe com a era dos pombos correios. 

Tudo isto para dizer que só agora  fui informado do nascimehto em Londres a 21 de Abril, duma menina chama Elizabeth , filha do princípe Alberto, irmão do rei de Inglaterra. è que se um dia acontecer alguma coisa ao tio, sabe se lá, pode suceder ao pai , como raínha de Inglaterra


Mais uma vez a minha amiga Severa Mourisca, surpreendeu-me graças aos seus conhecíentos no meio fadista, Convidou cá para casa uma jovem, mas talentosa fadista de apenas 19 anos , que ela  conhecera a cantar no ano passado no Parque Mayer, no Valente das farturas, mesmo ao lado do Júlio das farturas , onde canta o já nosso conhecido Alfredo Duarte um marceneiro estiloso 


domingo, 16 de agosto de 2020

Sopram ventos fascistas



(Grupo fundador da Seara Nova

Da esquerda para a direita, de pé: pároco do Coimbrão (não pertencente ao grupo), Teixeira de Vasconcelos, Raul Proença e Câmara Reis; sentados: Jaime Cortesão, Aquilino Ribeiro e Raul Brandão. )




Há muitos anos que sou frequentador do Café do Gelo, no Rossio, o antigo botequim do Gonzaga, como foi chamada quando da sua fundação no século passado e que desde sempre mantêm as suas características do café das elites revolucionárias.

Ontem saí de lá já pela meia-noite, depois de numa tertúlia ter ouvido Aquilino Ribeiro, encantar-nos com a sua verve, contando-nos os projectos da "sua" Seara Nova, que havia ajudado a fundar em 1921, acorrendo à iniciativa de Raúl Proença e outros intelectuais do nosso tempo

O seu objectivo de serem poetas militantes, críticos militantes, economistas e pedagogos militantes e contribuir para quebrar o isolamento da elite intelectual portuguesa, aproximando-a da realidade social, alertava-os para o que consideravam ser o perigo, soprado da Itália de Mussolini, o fascismo.

Entusiasmado Aquilino falou-nos da semana que a Seara Nova estava a organizar para se iniciar na semana que vem a 27 de Março, na luta contra esse movimento fascista que em Portugal era conduzido pelo Centro do Nacionalismo Lusitano

Á saída encontro Rodrigues Loureiro, secretário-geral interino do Partido Comunista Português, após ao afastamento de Carlos Rates, que me informa do início do II Congresso do seu partido, no próximo dia 29 de Maio na Caixa Económica Operária.

Os seus objectivos eram vastos explicou-me, reforçar a organização do partido e promover a sua melhor integração na luta popular. O seu entusiasmo era evidente, por finalmente se ir realizar este Congresso, sucessivamente adiado por decisão da Internacional Comunista que, duvidava da solidez político-ideológica do Partido.

Regressei a casa pensativo, mas por outro lado feliz, porque para além de todas as confusões e tiroteios que diariamente ocorriam pela ruas, tinha em curto espaço de tempo oportunidade de ouvir representantes quer da intelectualidade, quer do movimento popular, que me fazia acreditar que o ideal republicano democrático está vivo.

Aluguei um dos quartos da Casa a uma senhora, que me pareceu de excelente condição e muito asseada, embora na curta conversa que tivemos me tenha parecido pessoa dedicada às letras, também fiquei com a ideia de ser interessada por assuntos doutra transcendência.

Uma coisa temos em comum o gosto pelo fado lisboeta, veio a propósito falar-me dum tal Alfredo Marceneiro de profissão, vencedor dum concurso organizado pelo poeta Botto no Sul-América ali à Rua da Palma.Casa Comum, 20 de Março de 1926