Mostrar mensagens com a etiqueta Humberto Delgado. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Humberto Delgado. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Notas do meu diário-1959 (1)

 

Janeiro 1

Triunfo da revolução castrista em Cuba. 

O Triunfo da Revolução Castrista em Cuba aconteceu em 1º de janeiro de 1959 e marcou a queda da ditadura de Fulgencio Batista.

A revolução começou alguns anos antes, em 1953, quando Fidel Castro, ao lado do irmão Raúl e de outros companheiros, tentou tomar o Quartel Moncada. A tentativa falhou, Fidel foi preso, depois exilado no México. Lá, reorganizou o movimento e conheceu Che Guevara.

Em 1956, o grupo voltou a Cuba no iate Granma. Eram poucos, mal armados, mas persistentes. Refugiaram-se na Serra Maestra, onde iniciaram uma guerra de guerrilha, ganhando apoio de camponeses e de parte da população urbana, cansada da corrupção, da repressão e da desigualdade social sob Batista.

Ao longo de 1957 e 1958, o regime foi se enfraquecendo:
– perda de apoio popular
– crise econômica
– deserções no exército
– pressão internacional

Na virada de 1958 para 1959, Batista fugiu do país. As forças revolucionárias entraram em Havana, e Fidel Castro assumiu o poder poucos dias depois.

Janeiro 12

 Delgado pede asilo político na embaixada do Brasil

Em janeiro de 1959, o General Humberto Delgado pediu asilo político na Embaixada do Brasil em Lisboa. Isso aconteceu poucos meses depois das eleições presidenciais de 1958, nas quais Delgado concorreu contra o regime do Estado Novo, liderado por António de Oliveira Salazar.

Depois das eleições, Delgado passou a ser perseguido pela PIDE (polícia política do regime):

  • vigilância constante

  • ameaças de prisão

  • risco real de eliminação política

Sem condições de permanecer em liberdade, em 12 de janeiro de 1959, Delgado entrou na Embaixada do Brasil e pediu asilo político.

O Brasil, então governado por Juscelino Kubitschek, concedeu o asilo, provocando forte tensão diplomática com Portugal. Salazar tentou pressionar, mas acabou permitindo que Delgado deixasse o país.

Pouco depois, Humberto Delgado seguiu para o exílio, primeiro no Brasil e depois noutros países, continuando a oposição ao regime salazarista a partir do exterior.

Importância histórica do episódio:

  • expôs internacionalmente o caráter repressivo do Estado Novo

  • transformou Delgado num símbolo da resistência democrática

  • mostrou o papel das embaixadas como refúgio político durante ditaduras

  • reforçou o desgaste interno e externo do regime de Salazar

Janeiro 15

Henrique Galvão, em regime de prisão, foge do hospital de Santa Maria. Pede asilo político na embaixada da Argentina 

Henrique Galvão surge quase no mesmo contexto temporal e político de Humberto Delgado, como outra grande dor de cabeça para o Estado Novo.

Henrique Galvão era oficial da Marinha e antigo apoiante do regime, mas rompeu com Salazar ao denunciar:

  • a repressão política

  • o autoritarismo do Estado Novo

  • e, sobretudo, a política colonial portuguesa, que considerava injusta e insustentável

Nos anos 50, Galvão tornou-se um opositor ativo. Em 1952, chegou a denunciar publicamente, na Assembleia Nacional, abusos nas colónias — algo impensável no regime. Resultado:

prisão, perseguição e vigilância constante pela PIDE.

1959: fuga e asilo diplomático

Em 1959, quase na mesma altura em que Humberto Delgado pede asilo na Embaixada do Brasil, Henrique Galvão protagoniza outro episódio embaraçoso para Salazar.

Galvão encontrava-se preso, mas conseguiu fugir (com ajuda externa) e refugiou-se na embaixada da Argentina  , pedindo asilo político — gesto que, tal como o de Delgado, expôs internacionalmente a repressão do regime.

Pouco depois, acabou por sair de Portugal e seguir para o exílio, mantendo a luta contra o Estado Novo a partir do exterior.

Março 11

Revolta da Sé com Manuel Serra e o major Calafate. Mário Soares chama-lhe de inspiração católica. Participariam também o major Pastor Fernandes e o capitão Almeida Santos, oficial de ligação a Craveiro Lopes

A Revolta da Sé foi uma tentativa de levantamento militar e civil contra a ditadura de Salazar, planeada para março de 1959, em Lisboa, com epicentro simbólico na zona da .

O objetivo era:

  • derrubar o regime do Estado Novo

  • libertar presos políticos

  • abrir caminho à restauração da democracia

Quem esteve envolvido

A conspiração envolveu:

 Manuel Serra e o major Calafate. Mário Soares chama-lhe de inspiração católica. Participariam também o major Pastor Fernandes e o capitão Almeida Santos, oficial de ligação a Craveiro Lopes

  • oficiais das Forças Armadas (Exército e Marinha)

  • civis oposicionistas

  • setores ligados à candidatura de Humberto Delgado

  • republicanos, socialistas e democratas

Mostra bem como o descontentamento já não era só político, mas também militar.

O fracasso

A revolta nunca chegou a concretizar-se.

A PIDE infiltrou-se no movimento e prendeu os envolvidos antes do início da ação.
Foram feitas dezenas de detenções, incluindo oficiais de alta patente.

Não houve confronto armado nas ruas, mas o impacto político foi enorme.

Consequências

  • reforço da repressão e da vigilância policial

  • prisões, julgamentos e deportações

  • demonstração de que o regime estava ameaçado por dentro

  • ligação direta ao clima criado após as eleições de 1958

A Revolta da Sé prova que, em 1958–1959, o Estado Novo enfrentava:

  • oposição popular (Delgado)

  • oposição militar (Revolta da Sé)

  • oposição no exílio (Henrique Galvão)

Importância histórica

Embora fracassada, a Revolta da Sé:

  • revelou a fragilidade do regime

  • mostrou que o mito da unanimidade salazarista era falso

  • antecipou o papel decisivo dos militares na queda do regime em 1974

Cartas Abertas de Católicos sobre os serviços de repressão do regime. Depois das eleições de 1958 e no ambiente da Revolta da Sé, manifesta-se, através de uma série de cartas-abertas um movimentos de católicos críticos do salazarismo. 

Entre os subscritores, a poetisa Sophia de Melo Breyner Andresen, o monárquico Gonçalo Ribeiro Teles; o antigo deputado salazarista, Padre Abel varzim José Escada; Carlos Manzanares Abecasis; António Duarte Arnaut. Entre os sacerdotes subscritores, destacam-se também Adriano da Silva Pereira Botelho, César Teixiera da Fonte, João Perestrelo de Vasconcelos e José da Costa Pio.

(conforme notas do Prof , Adelino Maltez )

A mais conhecida

A mais famosa é a Carta Aberta de 1959, associada a António Alçada Baptista, Francisco Sousa Tavares, Mário Soares (católico cultural) e outros intelectuais ligados à Ação Católica e a revistas como a O Tempo e o Modo (já nos anos 60).

Essas cartas afirmavam, em essência:

não pode haver cristianismo verdadeiro sem liberdade, dignidade humana e justiça

Impacto político e social

  • quebrou a ideia de que a Igreja apoiava unanimemente Salazar

  • abriu espaço para uma oposição católica democrática

  • legitimou moralmente a resistência ao regime

  • influenciou gerações de jovens católicos

sábado, 17 de janeiro de 2026

Notas do meu diário-1958 (3)

 Junho 13

Carta do Bispo do Porto, 

D. António Ferreira Gomes a António de Oliveira Salazar, onde se tecem duras críticas à falta de autencidade corporativista e social-cristão do regime do Estado Novo. A missiva levará o prelado ao exílio, donde só regressa com Marcello Caetano.

António Ferreira Gomes (1906 – 1989) foi um bispo católico português de grande importância no século XX, conhecido tanto pela sua vida e obra eclesiástica como pela sua coragem moral e intervenção social e política em tempos difíceis em Portugal

D. António Ferreira Gomes destacou-se por uma postura corajosa e crítica frente ao regime de António de Oliveira Salazar, defendendo a dignidade humana, a justiça social e a liberdade de expressão — valores que o colocaram em confronto com o regime autoritário

Essa postura crítica levou-o a sofrer exílio entre 1959 e 1969, um período significativo em que foi afastado de Portugal por causa das suas posições firmes

Junho 18 

Após a eleição de 1958, Humberto Delgado fundou o Movimento Nacional Independente


O principal objetivo do MNI era unir as diferentes forças da oposição democrática — liberais, republicanos, monárquicos e outros grupos independentes — para manter viva a luta política contra o Estado Novo e prolongar o impulso político nascido da campanha de 1958

O papel político do MNI

  • Continuidade da mobilização democrática: o MNI surgiu para aproveitar a energia e organização que a candidatura de Delgado havia gerado, num ambiente onde a oposição tradicional estava há décadas sem espaço efetivo.

  • Pluralidade ideológica: não era um partido no sentido clássico, mas um movimento que juntava diferentes correntes anti-salazaristas, sem uma adesão partidária formal.

  • Luta contra o Estado Novo: pretendia ganhar espaço político e pressionar por reformas democráticas e liberdades dentro de um regime cada vez mais repressivo.

Julho 29 

Criação da NASA

A NASA foi oficialmente criada em 29 de julho de 1958, quando o presidente Dwight D. Eisenhower assinou o National Aeronautics and Space Act.
A agência iniciou atividades em 1 de outubro de 1958.

Ela substituiu e absorveu a antiga NACA (National Advisory Committee for Aeronautics), que desde 1915 se dedicava à investigação aeronáutica.

a NASA nasceu como agência civil, não militar — uma escolha estratégica para afirmar que o espaço deveria ser explorado para fins pacíficos e científicos, mesmo em clima de rivalidade global.

A lei de criação definiu metas muito claras:

  • Expandir o conhecimento humano sobre a Terra, a atmosfera e o espaço

  • Desenvolver tecnologia espacial e aeronáutica

  • Assegurar liderança científica dos EUA

  • Cooperar internacionalmente (quando possível)

  • Separar exploração científica de aplicações militares diretas

  • O contexto: Guerra Fria e o “choque Sputnik”

    Depois da Segunda Guerra Mundial, Estados Unidos e União Soviética entraram numa disputa tecnológica e ideológica profunda.
    Em 4 de outubro de 1957, a URSS lançou o Sputnik 1, o primeiro satélite artificial da História.

    Esse acontecimento teve um efeito sísmico nos EUA:

    • mostrou que os soviéticos dominavam foguetes capazes de atingir o espaço (e, por extensão, alvos militares);

    • gerou pânico político e militar;

    • expôs a fragmentação dos programas científicos norte-americanos.

    • Era claro: os EUA precisavam de uma agência civil, centralizada e de alto nível científico para liderar a exploração espacial.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Notas do meu diário-1958 (2)

 Maio 23

o Partido Comunista Chinês decide enveredar pelo Gande Salto em Frente em ruptura com o modelo soviético.

Mao força uma aceleração radical sem passar por um novo Congresso.

Em termos políticos, isso é importante porque:

  • Mostra o peso pessoal de Mao acima dos mecanismos coletivos;

  • Revela uma erosão da colegialidade decidida no Congresso;

  • Explica por que o Grande Salto teve pouca contestação institucional inicial;

  • Ajuda a entender o desastre humano e económico que se seguiu.

o Grande Salto em Frente foi uma decisão política de cúpula, não congressual — e isso não é um detalhe menor, é quase a chave para entendê-lo.

Com o Grande Salto em Frente, a China afasta-se claramente do modelo soviético:

Contra o modelo soviético:

  • rejeição do desenvolvimento lento e tecnocrático

  • desprezo pelos especialistas e engenheiros

  • aposta na mobilização política das massas

  • comunas populares em vez de fazendas estatais clássicas

👉 A URSS defendia: planeamento + técnica
👉 Mao defendia: vontade política + massas

Isto foi visto em Moscovo como aventurismo

 Ideologicamente: dois caminhos para o socialismo

Aqui está o nó central:

  • URSS: socialismo constrói-se com forças produtivas desenvolvidas

  • China (Mao): socialismo pode avançar mesmo na pobreza, com consciência revolucionária

Mao acusa os soviéticos de:

  • “revisionismo”

  • acomodação burocrática

  • abandono do espírito revolucionário


Junho 4

Comício de Delgado no Pavilhão dos Desportos em Lisboa

O comício de Humberto Delgado no Pavilhão dos Desportos, em Lisboa, a 4 de junho de 1958, foi um momento absolutamente decisivo da oposição ao Estado Novo — e também um ponto de não retorno para o regime.

Contexto rápido

  • Eleições presidenciais de 1958

  • Regime salazarista ainda firme, mas já com fissuras

  • Delgado, general da Força Aérea, surge como candidato inesperadamente oposicionista

  • A famosa frase “Obviamente, demito-o” (referindo-se a Salazar) já tinha incendiado o país

  • O comício no Pavilhão dos Desportos

Foi:

  • o maior comício oposicionista desde 1926

    • com milhares de pessoas (lotação esgotada e gente cá fora)

    • carregado de entusiasmo, tensão e desafio direto ao regime

    Ali, Delgado:

    • atacou frontalmente a ditadura

    • denunciou a farsa eleitoral

    • apresentou-se como alternativa real ao poder

    • falou num tom popular, direto e militar, o que assustou o regime

    Pela primeira vez em décadas, o medo parecia mudar de lado, ainda que por pouco tempo.

Junho 8 

Eleições presidenciais

As eleições presidenciais de 8 de junho de 1958 foram o desfecho tenso de tudo o que vinha a ferver — e um dos momentos mais claros de rutura entre o país real e o regime.

O que estava em jogo

  • Eleição do Presidente da República

  • No Estado Novo, o Presidente nomeava e demitia o Presidente do Conselho
    → daí a explosiva frase de Delgado: “Obviamente, demito-o.”

  • Candidatos principais:

    • 🔹 Américo Tomás — candidato oficial do regime

    • 🔹 Humberto Delgado — oposição democrática

O dia 8 de julho de 1958

Foi um dia marcado por:

  • fortíssima mobilização popular, sobretudo urbana

  • ambiente de intimidação e medo

  • presença ativa da PIDE

  • controlo apertado das mesas de voto

Apesar do entusiasmo visível em torno de Delgado, o processo esteve longe de ser livre.

Resultados oficiais

  • Américo Tomás: ~76%

  • Humberto Delgado: ~24%

  • Mas estes números são amplamente vistos pelos historiadores como:

    • resultado de fraude eleitoral

    • pressão sobre eleitores

    • manipulação administrativa

    • exclusão de votos oposicionistas

    É um daqueles casos em que o regime ganha nas atas e perde na legitimidade.

    Consequências imediatas

    As eleições de 8 de julho tiveram efeitos profundos:

    1️⃣ Endurecimento do regime

    • Salazar percebe que abriu uma brecha perigosa

    • reforça a repressão

    • reduz ainda mais as margens de tolerância política

    Fim da ilusão reformista



terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Notas do meu diário-1958 (1)

Janeiro 1

O Tratado de Roma entrou em vigor a 1 de janeiro de 1958.

Foi assinado em 25 de março de 1957, mas só passou a produzir efeitos legais depois de ratificado pelos seis países fundadores — daí esse intervalo entre assinatura e entrada em vigor.



Abril 20

Arlindo Vicente anunciou publicamente a sua candidatura à Presidência da República de Portugal a 20 de abril de 1958, numa assembleia de delegados da oposição democrática realizada em Lisboa

No entanto, pouco mais de um mês depois, a 30 de maio de 1958, ele retirou essa candidatura em favor da de Humberto Delgado, num acordo conhecido como o Pacto de Cacilhas, com o objetivo de unir as forças democráticas contra o regime do Estado Novo.

Arlindo Vicente foi uma figura portuguesa importante — advogado, pintor e político — que se destacou especialmente como antifascista e opositor ao regime do Estado Novo em Portugal.

Aqui vai um resumo sobre quem ele foi:

🧑‍⚖️ Perfil

  • Nome completo: Arlindo Augusto Pires Vicente.

  • Nascimento: 5 de março de 1906, no Troviscal (Oliveira do Bairro), Portugal.

  • Falecimento: 24 de novembro de 1977, em Lisboa.

  • Carreira e Lutas

    • Advogado — defensor de democratas e presos políticos, recusou-se a servir o regime autoritário do Estado Novo durante décadas.

    • Pintor autodidata — participou no movimento modernista português e expôs várias vezes na Sociedade Nacional de Belas Artes; só mais tarde, nos anos 1970, pôde dedicar-se de forma mais intensa à pintura.

    • Militante antifascista — ativo na oposição ao regime de Salazar, integrou movimentos como o Movimento de Unidade Democrática (MUD) e apoiou candidaturas democráticas.


Maio 10

Delgado profere o célebre Obviamente, demito-o (Maio)

Obviamente, demito-o. Sessão de Delgado no Café Chave de Ouro: obviamente demito-o (refererindo-se ao seu procedimento relativamente ao presidente do Conselho, no caso de uma vitória eleitoral). Secretário-geral do Partido Socialista, Fernandes Feijó, apoia Delgado.

, (segundo notas do Prof. Adelino Maltez )