Mostrar mensagens com a etiqueta Bernardino Machado. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Bernardino Machado. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Um exército de bajuladores



Casa Comum, 30 de Dezembro de 1937



O certo é que a nossa vida política, continua marcada por dois acontecimentos, a guerra cívil de Espanha e a consolidação da ditadura salazarenta e da consequente aliança com o nacionalismo espanhol.

Bem que fora de portas, se tenta que a união dos anti-fascistas portugueses e espanhóis, consiga florescer, mas a morte duma das suas figuras mais proeminentes da república portuguesa, Afonso Costa em Maio deste ano veio complicar o desenvolvimento dessa propaganda muito embora Bernardino Machado, tenha inclusivamente transferido a sua residência do Mónaco para Paris para substituir Afonso Costa no Comité ali formado.

No passado Verão, Bernardino Machado dirigiu-se a Juan Negrin, Presidente da Assembleia da Sociedade das Nações, protestando contra a atitude da Ditadura de se aliar com os governos alemão e italiano nesse apoio a Franco.

Como disse Bernardino Machado “servir os inimigos da nova Espanha livre é servir os inimigos seculares do Portugal restaurado”, reavivando a questão das ambições alemãs sobre as colónias portuguesas.

Os contactos com a "resistência" em Portugal, segundo um relatório de Roberto Queiroz, um representante daquele comité que se deslocou a Portugal para tentar conseguir adesões foi bastante negativo. Nesse relatório, Queiroz dizia que era difícil obter o apoio de grande parte dos adversários da ditadura, pois constatara que, seria inviável qualquer projecto de revolução sem o apoio do Exército, e o único militar republicano que poderia congregar vários sectores do Exército era Ribeiro de Carvalho, e este não mostrava empenho em assumir a chefia militar de uma revolução.

Como se vê minha amiga, o exército português está perfeitamente engajado à ditadura, prefere a bajular o ditador, do que servir a Pátria.

Enquanto isso Salazar nomeia o amigo Pedro Teotónio Pereira como o agente especial de ligação junto de Franco. Depois de ter sido de 1933 a 1936 subsecretário de Estado das Corporações e dois anos como Ministro do Comércio e Indústria, foi agora nomeado para este "importante cargo" na esfera da diplomacia da ditadura, que pasme-se, contraria a política oficial da Inglaterra.

Costa Leite o antigo discípulo, outra da fidelidades de Salazar em acumulação com o comando da Legião foi agora nomeado Ministro do Comércio e Indústria, substituindo Garcia Ramires, o que poderia não ter nenhuma importância especial, não fosse o acentuar da tendência para cada vez se fechar mais o grupo dos eleitos em torno do ditador, tenho a sensação que cada vez é mais restrito o número dos "eleitos" perto do ditador, o que talvez possa significar alguma insegurança e muita cautela, talvez como consequência do atentado falhado a 4 de Julho.

A consequência desse atentado foram detenções, muita detenções e mais repressão, fala-se em Ernesto Faustino, operário, José Lopes,operário anarquista, morre durante a tortura, Manuel Salgueiro Valente, tenente-coronel, (no exército há sempre alguém que resiste) que morreu em condições suspeitas no forte de Caxias, Augusto Costa, operário da Marinha Grande, Rafael Tobias Pinto da Silva, Francisco Domingues Quintas, Francisco Manuel Pereira, marinheiro de Lisboa, Pedro Matos Filipe, de Almada e Cândido Alves Barja,marinheiro, de Castro Verde, que morreram no espaço de quatro dias no Tarrafal, vítimas das febres e dos maus tratos; Augusto Almeida Martins, operário, é assassinado na sede da PVDE durante a tortura ; Abílio Augusto Belchior,operário do Porto, morre noTarrafal, vítima das febres e dos maus tratos.

Todos militantes do PCP e deixo-lhe a lista dos nomes que me chegaram ás mãos, para que fique bem claro, que eu não lhe disse apenas que morreram alguns, digo-lhe quem foi quem morreu e não acredito que todos eles estivessem envolvidos no atentado, mas na sequência comem por tabela.

Para acabar a "chatisse " da política como vc lhe chama, deixo-lhe a mensagem que Paiva Couceiro um insuspeito monárquico disse a Salazar, numa carta que lhe enviou

Cantam-se loas às glórias governativas e ninguém pode dizer o contrário. O Portugal legítimo do "senão, não" foi substituído por um Portugal artificial, espécie de títere, de que o Governo puxa os cordelinhos.

Vela a Polícia e o lápis da censura. Incapacitados uns por esse regime de proibições, entretidos outros com a digestão que não lhes deixa atender ao que se passa, e jaz a Pátria portuguesa em estado de catalepsia colectiva. Está em perigo a integridade nacional. É isto que venho lembrar.

Em memória de tanto morto, em Portugal e em terra dos nossos vizinhos espanhóis, vamos ouvir o Te Deum de Bruckner, uma peça que gosto muito, com os desejos que o próximo ano, seja menos doloroso.

sábado, 15 de agosto de 2020

Tenho quartos para alugar

Que estranho ter acordado neste 1 de Janeiro de 1926 e ter o casarão vazio. Habituei-me ao bulício desta casa e agora custa-me percorre-la vazia. Não sinto o cheiro do arroz de pato, que uma simpática senhora de Alcobaça, que por aqui passava, por ser amiga da D.Hilda, uma governanta que aqui existiu em tempos e que por amizade insistia em cozinha-lo por o saber, tão do gosto da nossa velha Hilda, filha de família outrora abastada.

Vou colar nos vidros das janelas, o triângulo indicativo, de que se trata de quarto para alugar. Hoje, que decidi manter a casa aberta, por mais algum tempo. Não vou conseguir mais do que 2 mil réis pelo aluguer, a vida está difícil, com grandes dificuldades económicas porque os preços dos bens alimentares não param de subir e os salários estão cada vez mais baixos. Desde o fim da Guerra Mundial tem sido sempre assim.

Alves dos Reis foi preso no fim do ano passado, por causa daquela trapalhada, das notas falsas e da confusão que se gerou no Banco de Portugal, com toda a gente a crer trocar as notas falsas.

Como eu percebo afinal o presidente Teixeira Gomes que ao partir para o exílio, desabafou , que se libertou da gaiola dourada de Belém e que os políticos eram intoleráveis. Achei interessante esta analogia com a liberdade dos passarinhos, que nenhum político até hoje se lembrara de estabelecer, se calhar uma dia virá que algum se lembrará de o citar.

Claro que ao novo presidente Bernardino Machado seguiu-se um novo governo com o António Maria da Silva a presidir, vamos lá a ver o que é que isto vai dar, mas o povo já não acredita em nenhum, sobretudo nos que já entram derrotados.

De lá de fora ouvem-se notícias bem mais animadoras. Li no jornal O Século, que na Inglaterra surgiram, leis de subsídio de viuvez, orfandade e velhice e leis sobre habitação social e subsídio de desemprego.Não me parece que cheguem cá tão depressa.

Por cá tomara termos emprego e mantê-lo, para poder mitigar a fome e comprar uma alpercatas e umas gangas que a mais o povo não aspira.

Não, mais do que vinte e cinco tostões vou pedir pelo quarto, só queria é que aparecesse alguém com emprego estável, no Estado, na Banco ou empregado do Grandella porque são lugares com futuro, para que se não ande sempre a mudar.
Além disso gostaria que aparecesse alguém com gosto pela poesia o pela ópera, para que se pudessem fazer aqui uns serões agradáveis com um pouco de cultura.

Se houver interesse, talvez aceite mandar vir uma criada de servir, já que me falaram duma pequena ali da zona saloia da Malveira, que se ajeita na cozinha e com quartos todos alugados, me meteria em aprontar serviços de governanta, cargo para o qual também já me falaram duma tal Maria, uma beirã que dizem muito alinhada e asseada, vamos ver.

Se o meu aparelho de rádio, não estiver dessincronizado e não tiver ar na canalização, vou ouvir o CT1 AA, que começou a trabalhar com muito êxito do ano passado, graças aos esforços do sr. Abílio Nunes dos Santos

Casa Comum, 1 de Janeiro de 1926