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sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Notas do meu diário-1956 (2)

 Fevereiro

XX Congresso do PCUS 

O XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), realizado em fevereiro de 1956, é um dos momentos mais decisivos do século XX — um terramoto político e simbólico que abalou todo o mundo comunista.

O que estava em jogo

Foi o primeiro grande congresso após a morte de Estaline (1953). A liderança soviética, agora com Nikita Khruschov em ascensão, precisava de:

  • consolidar poder,

  • redefinir o rumo do socialismo soviético,

  • lidar com o legado pesado do estalinismo.

O “Discurso Secreto”

O ponto central do congresso foi o célebre relatório de Khruschov “Sobre o culto da personalidade e as suas consequências”, apresentado à porta fechada.

Nele, Khruschov:

  • denunciou o culto da personalidade de Estaline,

  • expôs repressões, purgas, prisões arbitrárias e execuções,

  • criticou a substituição da direção coletiva pelo poder pessoal.

Não foi uma rejeição do sistema soviético — foi uma tentativa de salvar o regime condenando o excesso.

Consequências imediatas

  • Choque profundo nos partidos comunistas de todo o mundo.

  • Crise de consciência entre militantes e intelectuais.

  • Início do processo conhecido como desestalinização.

  • Abertura relativa no plano cultural e político (o chamado “degelo”).

Mas também:

  • instabilidade no bloco socialista.

  • Revoltas em 1956, especialmente na Hungria, brutalmente reprimida.

  • Importância histórica

    O XX Congresso mostrou algo inédito:

    • um regime revolucionário a criticar oficialmente o seu próprio passado;

    • a admissão, ainda que parcial, de que o poder pode desviar-se em nome da revolução.

    É um momento de rachadura interna, não de colapso — mas a fissura nunca mais fechou totalmente.

    Leitura mais profunda

    O congresso representa:

    • a luta entre verdade e sobrevivência política;

    • a tentativa de humanizar um sistema sem o democratizar;

    • a prova de que o mito, quando exposto, nunca volta a ser intacto.


Abril

II Congresso da Mocidade Portuguesa, em Lisboa

O II Congresso da Mocidade Portuguesa, realizado em Lisboa, em 1956, é um retrato muito claro de como o Estado Novo queria moldar o futuro antes mesmo de ele pensar por si.

Contexto

  • A Mocidade Portuguesa (MP) era uma organização obrigatória para jovens (com diferentes ramos por idade e género), criada para a formação moral, física e política segundo os valores do regime.

  • Em 1956, o Estado Novo já não vivia a euforia fundacional dos anos 30: vivia a necessidade de se perpetuar.

    • O congresso acontece no mesmo ano do IV Congresso da União Nacional, o que não é coincidência: há uma clara estratégia de fecho ideológico do regime.

    O Congresso

    • Teve lugar em Lisboa, com grande encenação pública: desfiles, cerimónias, discursos, símbolos.

    • Não foi um congresso deliberativo — foi pedagógico e performativo.

    • O objetivo central era reafirmar a MP como escola de fidelidade ao regime, ao chefe e à ideia de pátria una e eterna.


Importância histórica


Ideologia transmitida

  • Exaltação de valores como:

    • disciplina

    • hierarquia

    • obediência

    • sacrifício

  • Forte insistência na ideia de missão histórica de Portugal, com especial foco no Império Ultramarino.

  • A juventude é apresentada não como espaço de crítica ou inovação, mas como reserva moral do Estado.

  • O II Congresso da MP mostra um regime que desconfia da juventude, apesar de a exaltar retoricamente.

  • É um esforço claro de antecipação do futuro: formar jovens que não questionem quando chegar a hora de decidir.


 Maio

1 Dia do Trabalhador dá origem a várias manifestações

30 de Maio- IV Congresso da União Nacional

O IV Congresso da União Nacional, realizado em 1956, é um momento-chave para perceber o endurecimento e a autodefesa do Estado Novo numa fase em que o regime já sentia o tempo a pesar.

Alguns pontos essenciais:

Contexto

  • A União Nacional não era um partido no sentido moderno: era o instrumento político do regime salazarista.

  • Em 1956, Portugal vivia um aparente equilíbrio económico, mas já com pressões internas e externas: Guerra Fria, descolonização a avançar noutros impérios europeus, e sinais de desgaste social.

  • O Congresso em si

    • Serviu sobretudo para reafirmar a fidelidade a Salazar e à ideia de um Estado autoritário, corporativo e antidemocrático.

    • Não houve debate real: os congressos eram rituais de confirmação, não espaços de divergência.

    • Reforçou-se a narrativa da “ordem”, “disciplina” e “missão histórica” de Portugal, sobretudo ligada ao império colonial.

Ideias centrais reafirmadas

  • Rejeição clara do multipartidarismo e da democracia liberal.

  • Defesa do corporativismo como “terceira via” entre liberalismo e socialismo.

  • Centralidade do Ultramar como parte “inseparável” da nação — 

Importância histórica

  • O IV Congresso mostra um regime que já não está a construir, mas a conservar-se.

  • É um momento de autojustificação ideológica, mais preocupado em fechar fileiras do que em propor futuro.


quinta-feira, 2 de outubro de 2025

A criação da Mocidade Portuguesa

 Casa Comum, 31 de Agosto de 1936


Estávamos a adivinhar o desenlace a guerra civil ,aqui ao lado na vizinha Espanha. As últimas eleições que deram a vitória à esquerda unida, englobando todos os partidos tradicionais de esquerda, mais os anarquistas, os republicanos e os autonomistas da Esquerda catalã, os galegos e o Partido Nacional Basco. Essa coligação, venceu as eleições de Fevereiro passado, dominando 60% das Cortes, derrotando a Frente Nacional, composta pelos direitistas.

Esta Frente, perante tão ampla maioria. resolve pegar em armas, promoveu um levantamento militar liderado por um tal Francisco Franco, iniciando e escalada da revolta anti-democrática, exactamente pelo enclaves sob dominação espanhola em Marrocos.

Registemos a data de 18 de Julho de 1936, para assinalar o início deste conflito, que tudo indica, vai ser violentíssimo e que por certo atendendo ao facto de decorrer à nossa porta, vai por certo obrigar Salazar a tomar medidas, que de todo, vão ser desfavoráveis ao governo republicano espanhol, democraticamente eleito.

Conhecendo os seus princípios, basta sabermos que esse governo corresponde a uma unidade de esquerda, composta por socialistas e comunistas, para se perceber,que preferirá alinhar, pelas forças reaccionárias e fascistas da Frente Nacional, embora possa até, "jesuiticamente" nunca o admitir, mascarando-se de falsa equidistância.


O pequeno revés da morte em Cascais do general Sanjurgo, o principal dirigente da Frente Nacional, num desastre de avião, que partindo de Portugal o levaria para Espanha, no passado dia 20 de Julho, não fará por certo emperrar os planos de tomada de poder pela força da Frente Nacionalista.

Salazar continua preocupado com o alinhamento político dos militares, pelo que decidiu impor a sua autoridade, nomeando-se em acumulação sine die a pasta do Ministério da Guerra. Prova da sua desconfiança, não delegando em ninguém a coordenação daquele sector

A tendência para copiar as instituições fascistas alemães e italianas mantém-se, desta vez atingindo os mais jovens, criando a Organização Nacional Mocidade Portuguesa pelo Decreto-Lei n.º 26 611, de 19 de Maio de 1936, em cumprimento do disposto na Base XI da Lei n.º 1941, de 19 de Abril de 1936.

Pretendia abranger toda a juventude - escolar ou não - e atribuía-se, como fins, estimular o desenvolvimento integral da sua capacidade física, a formação do carácter e a devoção à Pátria, no sentimento da ordem, no gosto da disciplina, no culto dos deveres morais, cívicos e militares.

Os princípios inquestionáveis os objectivos, servir para criar a idolatria pelo chefe, bem expresso no significativo S, que todos ostentavam na fivela do cinto, bem como reveladora, também seja a saudação nazi do braço estendido, seguindo os padrões daquela ideologia.

A minha sugestão filmica de hoje, vai para o musical Show Boat de James Whale e em especial para uma passagem musical que acho vai gostar Old man River, cantado por Paul Robeson.

Quanto à musica vou convida-la para um serão mozartiano .