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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Notas do meu diário-1958 (2)

 Maio 23

o Partido Comunista Chinês decide enveredar pelo Gande Salto em Frente em ruptura com o modelo soviético.

Mao força uma aceleração radical sem passar por um novo Congresso.

Em termos políticos, isso é importante porque:

  • Mostra o peso pessoal de Mao acima dos mecanismos coletivos;

  • Revela uma erosão da colegialidade decidida no Congresso;

  • Explica por que o Grande Salto teve pouca contestação institucional inicial;

  • Ajuda a entender o desastre humano e económico que se seguiu.

o Grande Salto em Frente foi uma decisão política de cúpula, não congressual — e isso não é um detalhe menor, é quase a chave para entendê-lo.

Com o Grande Salto em Frente, a China afasta-se claramente do modelo soviético:

Contra o modelo soviético:

  • rejeição do desenvolvimento lento e tecnocrático

  • desprezo pelos especialistas e engenheiros

  • aposta na mobilização política das massas

  • comunas populares em vez de fazendas estatais clássicas

👉 A URSS defendia: planeamento + técnica
👉 Mao defendia: vontade política + massas

Isto foi visto em Moscovo como aventurismo

 Ideologicamente: dois caminhos para o socialismo

Aqui está o nó central:

  • URSS: socialismo constrói-se com forças produtivas desenvolvidas

  • China (Mao): socialismo pode avançar mesmo na pobreza, com consciência revolucionária

Mao acusa os soviéticos de:

  • “revisionismo”

  • acomodação burocrática

  • abandono do espírito revolucionário


Junho 4

Comício de Delgado no Pavilhão dos Desportos em Lisboa

O comício de Humberto Delgado no Pavilhão dos Desportos, em Lisboa, a 4 de junho de 1958, foi um momento absolutamente decisivo da oposição ao Estado Novo — e também um ponto de não retorno para o regime.

Contexto rápido

  • Eleições presidenciais de 1958

  • Regime salazarista ainda firme, mas já com fissuras

  • Delgado, general da Força Aérea, surge como candidato inesperadamente oposicionista

  • A famosa frase “Obviamente, demito-o” (referindo-se a Salazar) já tinha incendiado o país

  • O comício no Pavilhão dos Desportos

Foi:

  • o maior comício oposicionista desde 1926

    • com milhares de pessoas (lotação esgotada e gente cá fora)

    • carregado de entusiasmo, tensão e desafio direto ao regime

    Ali, Delgado:

    • atacou frontalmente a ditadura

    • denunciou a farsa eleitoral

    • apresentou-se como alternativa real ao poder

    • falou num tom popular, direto e militar, o que assustou o regime

    Pela primeira vez em décadas, o medo parecia mudar de lado, ainda que por pouco tempo.

Junho 8 

Eleições presidenciais

As eleições presidenciais de 8 de junho de 1958 foram o desfecho tenso de tudo o que vinha a ferver — e um dos momentos mais claros de rutura entre o país real e o regime.

O que estava em jogo

  • Eleição do Presidente da República

  • No Estado Novo, o Presidente nomeava e demitia o Presidente do Conselho
    → daí a explosiva frase de Delgado: “Obviamente, demito-o.”

  • Candidatos principais:

    • 🔹 Américo Tomás — candidato oficial do regime

    • 🔹 Humberto Delgado — oposição democrática

O dia 8 de julho de 1958

Foi um dia marcado por:

  • fortíssima mobilização popular, sobretudo urbana

  • ambiente de intimidação e medo

  • presença ativa da PIDE

  • controlo apertado das mesas de voto

Apesar do entusiasmo visível em torno de Delgado, o processo esteve longe de ser livre.

Resultados oficiais

  • Américo Tomás: ~76%

  • Humberto Delgado: ~24%

  • Mas estes números são amplamente vistos pelos historiadores como:

    • resultado de fraude eleitoral

    • pressão sobre eleitores

    • manipulação administrativa

    • exclusão de votos oposicionistas

    É um daqueles casos em que o regime ganha nas atas e perde na legitimidade.

    Consequências imediatas

    As eleições de 8 de julho tiveram efeitos profundos:

    1️⃣ Endurecimento do regime

    • Salazar percebe que abriu uma brecha perigosa

    • reforça a repressão

    • reduz ainda mais as margens de tolerância política

    Fim da ilusão reformista



sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Eleições legislativas

Casa Comum, 30 de Novembro de 1953

Notas do meu diário


Outubro de 1953

Tentativas de oposição ao regime do União Nacional: surgem iniciativas como um manifesto do alegado Partido Cristão Democrático, que convoca abstenção — embora de alcance limitado. A oposição tenta, de formas várias, mobilizar o eleitorado. 

8 de novembro de 1953
As Eleições legislativas de 1953 ocorrem: todos os 120 deputados da Assembleia Nacional são eleitos pela União Nacional — a oposição não consegue qualquer assento, evidenciando a natureza controlada e autoritária do sistema eleitoral do regime. 


24 de novembro de 1953

Explosão na Fábrica de Material de Guerra de Braço de Prata, em Lisboa — um acidente grave que causa cerca de 12 mortos e cerca de 200 feridos, chocando a opinião pública. 


 

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Nova farsa eleitoral


  • Casa Comum, 31 de Dezembro de 1945


Salazar tinha prometido eleições livres "tão livres como na livre Inglaterra" e assim considerou estas que tiveram lugar no passado dia 18 de Novembro, nas quais a UN elegeu todos os seus 120 candidatos. A percentagem de eleitores recenseados não ultrapassa 12% do total da população e Albino dos Reis é eleito presidente da AN, sucedendo a José Alberto dos Reis.

Foram 909.9456 eleitores recenseados como disse apenas 12% do total da população.

Para mascarar o acontecimento, permitira que o MUD se apresentasse a eleições,porém criando uma teia tão grande de dificuldades, entre limitações, ameaças e acções de intimidação aos apoiantes oposicionistas que levaram o MUD a apelar à abstenção, considerando que não estavam reunidas às condições para a realização de um acto eleitoral com um mínimo de isenção

Sobre eleições livres está tudo dito, embora nas ruas e nos campos por todo o Alentejo e Ribatejo se ergam greves e manifestações , que reivindicavam aumentos salariais.

Destaco entretanto a eleição de Maria Lamas como presidente do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, associação fundada durante a I República em 1914 por Adelaide Cabette.

Esta mulher que nascera em Torres Novas em 1893 e que começara por receber uma educação de tipo tradicional no Convento de Santa Teresa de Jesus saiu do colégio em 1910, por alturas da proclamação da República, acontecimento que referia como um dos marcos profundos da sua vida.

Divorciada de Ribeiro da Fonseca com quem viveria em Africa,fixa-se em Lisboa, onde se dedica ao jornalismo, iniciando-se numa agência de notícias, depois na revista ‘Civilização’ e finalmente no ‘Século’ onde entrou, pela mão de Ferreira de Castro.

As suas intenções em prol da defesa e dignificação do papel das mulheres serão as melhores mas esta teia que nos cerca é cada vez mais apertada, apenas as instituições da repressão vão mudando de nome de quando em vez.

Agora acabou a PVDE e nasce a PIDE, que passa a poder deter legalmente para averiguações sem qualquer controlo judicial os suspeitos de actividades contra a segurança do Estado

Como estava no Porto na altura fui ao Coliseu no passado dia 12 ver a estreia do José do Telhado de Armando de Miranda que dizer ? É cinema português com as qualidade e defeitos que sabemos.