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sábado, 15 de novembro de 2025

O fim do Movimento Científico

 

O fim do Movimento Científico


  • Casa Comum, 30 de Junho de 1947


No passado dia 25 de Maio aconteceu, um desastre desportivo que abalou o orgulho futebolístico nacional, a derrota por 10 a 0 no Jamor contra a poderosa Inglaterra, os mestres do futebol sob a batuta de Stanley Matthews, deram uma lição.

Desta vez nem nos pudemos socorrer do habitual argumento das vitórias morais.

Já em Setembro de 1946 o Ministro da Educação Nacional José Caeiro da Mata, expulsara Bento de Jesus Caraça, professor catedrático do ISCEF da Universidade Técnica de Lisboa, por ter sido autor do manifesto "O MUD perante a admissão de Portugal na ONU"

Idêntico procedimento é iniciado para com Mário de Azevedo Gomes, primeiro subscritor do referido manifesto e também professor da mesma Universidade.

Este ano já foram compulsivamente afastados do ensino universitário, entre outros: Ruy Luís Gomes, Mário Silva, Celestino da Costa, Cândido de Oliveira,
Pulido Valente, Fernando Fonseca, Adelino da Costa, Cascão de Ansiães, Torre de Assunção, Flávio Resende, Ferreira de Macedo, Peres de Carvalho, Marques da Silva, Zaluar Nunes, Rémy Freire, Crabée Rocha, Dias Amado, Manuel Valadares, Armando Gibert, Lopes Raimundo, Laureano Barros, José Morgado, Morbey Rodrigues.

É sempre interessante registarem-se os nomes das vítimas e do algozes, para memória futura, para que um dia e haverá por certo um dia, não se nos escape a memória da justiça, quando alguns mudarem de casaca,

A lógica repressiva, (deve haver uma lógica na repressão) pode ser demonstrada por exemplo no caso concreto de Ruy Luís Gomes, que foi afastado do serviço por telegrama do Ministro da Educação, por ter reclamado contra a prisão de uma aluna.

Afinal o fascismo acaba por alcançar um dos seus objectivo, acabar com a cultura e promover a estupidez e a ignorância os seus maiores aliados, pois com a repressão, a maioria dos principais protagonistas do Movimento Científico foi desaparecendo da cena política e científica portuguesa.

Sobretudo após estas expulsões, o Movimento Científico viu reduzida significativamente a sua actividade, tornando-se numa pálida imagem do que tinha sido o Núcleo de Matemática, Física e Química, que pretendia ser o início de uma verdadeira Escola de Ciência fundado em 1939, muitos dos seus membros foram compelidos a emigrar

A propaganda não pára António Ferro o seu ministro, apela as altos valores da Pátria e do passado, se bem que eu ache que não os devemos esquecer, condeno que se sirvam deles para ocultar o presente,

Ou melhor dito quem esconde dos portugueses a realidade do seu presente e lhe veda a possibilidade de ter futuro, não tem o direito de falar do passado, mas foi assim no dia 14 de Maio o desfile comemorativo do 8º centenário da tomada de Lisboa aos Mouros.
Mas a festa em Portugal é de curta duração e não é para todos, o cinzentismo da vida política divide-se entre a fome as privações e a revolta ou tentativa disso e a repressão continuada pelas forças policiais.

São exemplo disso movimento grevista dos operários da construção naval da região de Lisboa no dia 4 de Abril sendo as oficinas implicadas encerradas e o Governo obrigado a requisitar trabalhadores para assegurar serviços mínimos nos estaleiros navais.

Tentativa frustrada de putsch militar encabeçado por Mendes Cabeçadas que fugazmente fora Presidente da República em 1926 e que agora presidia à Junta Militar de que faziam parte, entre outros, o general Marques Godinho, o brigadeiro Vasco de Carvalho e o coronel Carlos Selvagem, segundo sei e que aliás confidencio à minha amiga, com a certeza que nada transpirará

No âmbito desse levantamento, destacou-se a sabotagem de aviões na Base Aérea de Sintra, levada a cabo por um jovem revolucionário, a quem coube a tarefa de sabotar os aviões da base aérea da Granja, Sintra, onde havia prestado serviço militar.

Sei que se encontra foragido às garras da PIDE que não descansará enquanto não lhes deitar as mãos

O julgamento dos implicados no golpe fracassado da Mealhada em 10 de Outubro de 1946 decorreu como habitualmente no clima de impunidade e 10 de Abril de 1947, foi preso nos calabouços da Polícia de Segurança Pública, em Leiria, transferido para a Penitenciaria de Lisboa e depois para o Aljube. Nesse julgamento também foi condenado Fernando Queiroga a 3 anos de prisão celular com perda de direitos políticos durante 5 anos.

É assim a vida política em Portugal, passada entre luta e repressão e tribunais e juízes inteiramente enfeudados ao ditador Salazar

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Os melhores anos da vida DELES




  • Casa Comum, 31 de Agosto de 1946


No dia 8 de Maio comemorou-se o 1º aniversário do fim da Guerra Mundial, mas se bem que aquele flagelo tenha acabado o certo é que as relações entre a União Soviética e os Estados Unidos têm vindo a arrefecer bastante

A falta de confiança fez quebrar os compromissos assumidos durante a guerra. Estaline, por um lado, não cumpriu a promessa de fazer eleições livres na Europa de Leste, e Truman, por sua vez, não concedeu o auxílio prometido à reconstrução da União Soviética no período do pós-guerra.

Durante vários meses, um diplomata americano em Moscovo, tentou advertir a lideranças políticas de seu país contra Estaline. Mas ninguém lhe deu atenção. Seu papel de diplomata insignificante mudou de forma radical no dia em que a União Soviética rejeitou a filiação ao Banco Mundial.

Sem entender nada, a Secretaria das Finanças buscou mais informações junto à sua embaixada em Moscovo. Como o embaixador não estivesse, o próprio Kennan ditou o telegrama de resposta à secretária, no dia 22 de Fevereiro .

O documento continha 8 mil palavras e fazia sérias advertências às intenções expansionistas de Estaline. Para evitar que o telegrama fosse visto por pessoas não autorizadas, dividiu-o em cinco partes.

Na opinião de Kennan, Moscovo tinha por objectivo expandir as fronteiras soviéticas e se aproveitaria de qualquer organização internacional que lhe desse oportunidade para ampliar seu poder, em detrimento do de outros.

A tensão aumentou ainda mais quando Estaline, proferiu um discurso interpretado pelos norte-americanos como uma declaração de guerra ideológica ao Ocidente.

Onde irá parar este arrefecimento ?

Supondo-se que com conhecimento prévio de Carmona, está constituída, por iniciativa de um grupo de personalidades civis e militares, uma Junta Militar de Libertação Nacional desenrolando-se os preparativos conspiratórios para um golpe militar.

Dizem-me que dele fazem parte o comandante Mendes Cabeçadas o general Marques Godinho e Celestino Soares, entre algumas outras personalidades conhecidas da oposição como João Soares e Castanheira Lobo.

As reuniões decorrem no Colégio Moderno, em Lisboa, Almada e Tomar Aguardemos no que vai resultar mais esta tentativa de rebelião

No passado dia 22 de Julho, tenho a notícia que um jornalista do Time foi expulso, por ter escrito uma noticia sobre a situação critica que se vivia em Portugal, debaixo da ditadura do Estado Novo, criticando violenta mas justamente a figura do beirão António. è sua expulsão junta-se a condenação do Time ver as suas vendas proibidas por 6 anos

Em 2 de Junho de 1946, após vinte anos de fascismo e cinco anos de guerra, os italianos votam o referendo para decidir entre a República e a Monarquia. 54,3% dos eleitores escolheram a República decretando, com uma margem de 2 milhões de votos, o fim da Monarquia e o exílio dos Savoia.

É também eleita a Assembleia Constituinte, encarregada de redigir a nova Constituição.

Não quero deixar de referir um grande filme deste ano por certo candidato aos Óscares "os melhores anos da nossa vida", mas cujo titulo não ilustra por certo o caso português.



Por cá a 16 de Agosto estreou no cinema Trindade, a nova coprodução com Espanha, “A Mantilha de Beatriz”, filme realizado pelo espanhol Eduardo Garcia Maroto. O filme era uma adaptação dum romance de Pinheiro Chagas.

Interpretação de António Vilar, Virgílio Teixeira, Paiva Raposo, Barroso Lopes, Helga Liné e Manuel Lereno e do lado dos espanhóis, surgiam Margarita Andrey, Juan Espantaleon e Maria Isbert.

Este filme aborda um tema novo no cinema português, adaptações dos chamados romances de capa e espada a “A Mantilha de Beatriz”, segue esse modelo A estreia foi um êxito tanto em Portugal como em Espanha.

A crítica diz dele : “Acção, romance, amor e aventura são os motivos fortes, inabaláveis que fazem deste filme, original no seu género, um filme sensacional, um filme que não esquecerá.”

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Golpe militar a 28 de Maio

O almoço deste dia 30 de Maio, estava pesado, não porque o bacalhau à Gomes de Sá, que eu mandara a cozinheira Efigénia, prepara para esse dia ao almoço, fosse de condimentação pesada, mas porque o semblante da Severa Mourisca não agurava nada de bom, atendendo às notícias que eu acabara de lhe ler no O Século de hoje.

Estava excelente o bacalhau, que esse cozinheiro do Restaurante Lisbonense (na foto), havia criado e que segundo sabia se encontrava, bastante doente. A velha Efigénia se bem que minhota, há anos que viera para Lisboa e tinha servido nas melhores casa, pelo que não tinha dificuldade em confeccionar os pratos que eu lhe encomendava.

Não fora o caso deste bacalhau, já que a confecção é simples pois a sua receita tradicional propõe que o bacalhau seja cortado em pequenas lascas marinadas no leite por mais de uma hora. Assado no forno, com azeite, alho, cebola, acompanhando azeitonas pretas, salsa e ovos cozidos.

As consequências do golpe militar que sob a chefia de Gomes da Costa, se tinha iniciado em Braga no dia 28, tinham precipitado acontecimentos vários, desde a demissão do governo de Antonio Maria da Silva  ao mesmo tempo que a guarnição militar de Lisboa, sob o comando de Mendes Cabeçadas, adere ao movimento de Gomes da Costa, com o apoio da polícia de Ferreira do Amaral.

Que não houvesse preocupação dizia eu à minha amiga Severa, era um movimento militar que tinha por objectivo restaurar a ordem pública e não tardaria a que o Bernardino Machado, nomeasse outros governo da confiança dos militares e tudo continuaria como dantes, ela que bem sabia que de Gomes da Costa se dizia que tinha cabeça de galinha e era sempre da opinião da última pessoa com quem falava.

Ela abanava a cabeça taciturna, dizia-me que desta vez SABIA, TINHA A CERTEZA, que esta revolta tinha chegado para ficar e que iria durar décadas, que passaríamos tempos de ditadura e os ideais republicanos e democráticos, postos em causa.

Não deixou de me perguntar sibilinamente se a escolha do almoço não fora uma subtil homenagem minha á revolta do outro Gomes. Descansei-a quanto ás minhas intenções políticas, já que das suas, fiquei sem dúvidas.

Dizia-me ela que não duvidasse das suas capacidades divinatórias e que me lembrasse futuramente que não foi por acaso, que a revolta de Gomes da Costa, havia começado em Braga, já que nessa altura também ali decorria o Congresso Mariano, e essa dupla entre a força e a Virgem Maria, chegara para durar.

Lembrei-me que há pouco tempo, havia elogiado a capacidade cívica organizativa dos portugueses, onde as pessoas participavam activamente , embora também se notassem alguns sinais de cansaço, pelas dificuldades mas sobretudo pela incapacidade política de encontrarem ponto de concórdia mínimos que pudessem suprir as dificuldades que o País atravessa.

Constava-se que Bernardino Machado se havia demitido e entregue o poder nas mãos de Mendes Cabeçadas novo chefe do executivo, que ele próprio havia empossado.

Para desanuviar o ambiente no fim do almoço, propus-lhe que passássemos à biblioteca, para ouvir um pouco da Turandot que estreara no Scala em Abril passado

Casa Comum, 31 de Maio de 1926